domingo, 26 de abril de 2009

Lutero, Hermenêuta da Modernidade

Martinho Lutero era um jovem alemão feliz e despreocupado que tocava alaúde e privava com seus pares amigos. Contudo, numa tempestade, em campo aberto, temeu a morte e, invocando Santa Bárbara prometeu que, se salvo, tornar-se-ia monge. Isso ocorreu e, reunindo-se pela última vez com seus companheiros numa noitada, decidiu partir para a vida monástica. Todavia, essa vida tornou-se para ele num terrível pesadelo pois fazia de tudo para se santificar mas não conseguia, quanto mais tentava se salvar por si mesmo(nas suas próprias palavras: "se erguer de um atoleiro apenas puxando os seus próprios cabelos"), mais se perdia e reincidia no pecado.Ele foi várias vezes repreendido e aconselhado pelos seus superiores a não ser muito rigoroso consigo mesmo mas ele não desistia. Assim, resolveu ir até o Vaticano em buscas de respostas. Lá viu um ambiente extremamente profano e pecaminoso, envolvendo os mais simples monjes, bispos, cardeais e até o próprio Papa(a existência de papistas, Papas guerreiros, venda de indulgências e a admissão de uma multidão de santos caracterizavam aquela igreja corrompida). Voltando a Wittemberg, afixou na porta da Matriz várias dezenas de teses criticando o catolicismo vigente. Foi chamado à Roma para prestar depoimento e satisfação sobre as suas idéias. Persistindo nelas, Lutero foi excomungado e , contudo, não se importando, queimou a bula de excomunhão em praça pública. A esta altura o cisma na Igreja já havia sido iniciado. Perseguido, Lutero obteve proteção da Liga de Smalkade, consistindo de nobres cavaleiros alemães que não queriam que o dízimo de Roma fosse cobrado em terras germânicas. Assim, protegido, Lutero não pereceu, ao contrário de Huss e Wycliff os quais queriam reformar não só a religião mas a política, porque o monge de Wittemberg desejava mudar apenas a Igreja Católica. Os príncipes colocaram Lutero a salvo num castelo, onde ele traduziu a Bíblia para o alemão, de modo que o povo pudesse conhecer a palavra de Deus. Nessa altura do conflito, com as forças sociais protestantes intensamente configuradas, restou a transigência e a contemporização. Foram muitas as conversações, em Aubsburgo, Spira e Worms, até a paz final e o reconhecimento derradeiro da religião cristã reformada. Lutero casou-se com uma ex-monja e teve também filhos. Escreveu um número enorme de textos sobre teologia, dos quais os Catecismos Maior e Menor são os mais divulgados e conhecidos. Contudo, é devido a sua iniciativa de tradução e interpretação revolucionária da Bíblia que lhe rendeu o título de "hermenêuta da modernidade". Foi em Romanos 1 que Lutero obteve a sua iluminação, onde sentencia peremptório que "(...) o justo(justificado) viverá por fé".
P.S.: A Igreja de confissão luterana não foi a única a ser reformada. A controvérsia entre o Vaticano e a virtual sucessão ao trono inglês levou o rei Henrique VIII a romper com aquele. Isso ocorreu porque Henrique VIII quis se divorciar da presente rainha, Catarina de Aragão, e se casar com Ana Bolena, o que foi-lhe vetado pela Santa Sé. Assim, à semelhança da Alemanha embora por vias diferentes, este rei fundou a própria igreja nacional inglesa, a Episcopal Anglicana. Devido ao seu caráter intempestivo, passou a repelir a própria Ana Bolena a qual, sua esposa, não lhe deu um filho homem, mas uma filha, Elisabeth I. O destino último de Bolena foi a condenação à morte. Partindo da perseguição aos católicos, Henrique VIII passou a perseguir os próprios anglicanos, segundo uma incoerência religiosa total. Mais tarde, Elisabeth I governou a Inglaterra e continuou sendo chefe da Igreja Episcopal Anglicana por toda a sua vida(presentemente, a rainha atual do Reino Unido, Elisabeth II, conserva essa função religiosa e confessional).
No Reino Unido também surgiu uma nova igreja reformada, criada por João Calvino. Dentre vários cânones particulares, Calvino defendia a bênção e salvação de Deus exclusivamente para aqueles fiéis ricamente abastados com dinheiro ou bens materiais. Finalmente, a religião reformada ocidental foi analisada pelo filósofo Max Weber em sua obra intitulada: "A Ética do Protestantismo e o Espírito do Capitalismo"(Spartacus).

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