Os procedimentos em tratar, lidar ou tentar curar a loucura são muito antigos. Houve um tempo pretérito(o medieval) em que os dementes eram internados num navio que seguia descontrolado e à deriva, chamava-se a Stultifera Navis. Desde a antiguidade que a loucura era considerada um estilo particular, idiossincrático, um modo diferente de ser. Por exemplo, na Palestina de Cristo, os loucos, as crianças e os nabis(fundamentalistas religiosos delirantes) eram tolerados e vivenciavam o contexto social livremente, eram respeitados(uma dos sinônimos de "nabi" era "rabi"). A aleatoriedade e indeterminação sociais e existenciais dos tempos medievos eram estigmatizados pela crítica a partir da modernidade renascentista("cegos que guiavam outros cegos ao abismo") ou o protesto aberto àqueles costumes(em obras literárias como "O Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdã, "Dom Quixote de La Mancha " de Cervantes, "O Leviatã" de Hobbes, "A Utopia" de Morus e "A Cidade do Sol" de Campanella). A racionalidade científica cartesiana ali começava a imperar, a ciência emergente iniciava suas exigências no seio de uma sociedade em franca transformação. Contudo, é no advento da revolução francesa de 1789 e do pensamento iluminista dos enciclopedistas que as sociedades científicas, principalmente na França, começaram a tratar o louco com métodos espetaculares(o racionalismo das ciências era então transferido às humanidades e aos contextos teóricos político e social). É o caso do Woysec e de outros espécimes específicos catalogados, também o exemplo do Homem Elefante, este último apresentado num filme cinematográfico recente que caracterizou aquelas exposições monumentais de eugenia e figniosomia(duas ciências já obsoletas) realizadas pela Royal Society em Londres. Contudo, é nos séculos XVIII e XIX que a loucura passou de "erro de cálculo" para ser considerada "distúrbio de comportamento". Assim, de modo concomitante, começaram a ser construídos grandes complexos penitenciários e grandes complexos psiquiátricos. O internamento, aplicação de procedimentos normativos, organizacionais, regulativos e repressores, simultaneamente à processos clínicos rudimentares (e muito questionáveis), tratavam o louco segundo uma referência direta com o criminoso. Choques anafiláticos, choques elétricos, indução de febre e convulsões eram aplicados experimentalmente aos pacientes, concomitantemente ao surgimento da psicologia moderna e da psicanálise, principalmente na Europa do século XIX(Charcot, Freud, Bleuer, Kraepelin, Klein e Pinel por exemplo(este último tendo o mérito de libertar os dementes dos grilhões). Mais tarde, já no século XX, tivemos Jung, Adler e Rogers e, finalmente, a filosofia psicanalítica de Jacques Lacan). Às vezes se supõe que a psiquiatria parou no tempo. A rotina diária de um hospital psiquiátrico no início do terceiro milênio é particularmente simples, organização coletiva social-psicológica, contenção medicamentosa ou mesmo mecânica, uso terapêutico e mesmo repressivo da palavra, normalização comportamental, vigilância permanente, controle corpóreo, do gesto e, se possível, do próprio pensamento. A despeito do uso terapêutico do choque elétrico, em alguns hospitais ainda se aplica o choque elétrico punitivo e usualmente a contenção física através da camisa de força ou amarras. Existem regras silenciosas nos hospícios e quem ousar ou tentar se confrontar com o sistema acabará invariavelmente esmagado e exterminado pelo sistema(com a punição suprema e derradeira da lobotomia, por exemplo, que torna completamente passivos e inofensíveis os pacientes que seriam irremediavelmente agressivos na ausência de uma intervenção cerebral definitiva específica). De fato, nos parece que, enquanto outras áreas da medicina avançam a passos largos, a psiquiatria amiúde parece permanecer estagnada no tempo, com suas práticas e procedimentos historicamente invariantes e universalmente repressivos. Considerados tema tabu até os anos 50, a loucura, a clínica e o hospital psiquiátricos começaram a ser nas últimas luzes do estruturalismo abordados por filósofos como Jules Deleuze e Michel Foucault, esse morto em 1984 pelo HIV, sendo um dos primeiros intelectuais a sucumbir devido à AIDS através de um longo e doloroso processo infeccioso(Spartacus).
domingo, 10 de maio de 2009
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